Quando o mais famoso esporte bretão ainda desembarcava em território tupiniquim, ninguém sequer pensava em ver o football como profissão – e nem em traduzir as suas infindáveis terminologias.
Era comum que os players pagassem para participar dos matches. Em Taubaté, como conta uma das crônicas de Oswaldo Barbosa Guisard (Quando o futebol chegou em Taubaté), os foot-ballers investiam dois mil réis de mensalidade ao Sport Club Taubateense e adquiriam seu próprio material de jogo. O dinheiro era usado para as despesas com a manutenção do ground, pagamento do zelador, etc.

O Taubateense jogava no centro do ground do velódromo, onde aconteciam os páreos de bicicleta, então esporte mais popular de Taubaté, onde foram marcadas as touch-lines e as goal-lines e os place-kick.

Dentre os players da primeira formação do Taubateense, o mais famoso foi o goal-keeper (goleiro) Rafael Gaspar Falco, não pelo seu talento atlético, mas pelo talento artístico.
Rafael Falco, nascido na Argélia, filho de Gaspar Falco e Antonia Jean Falco, em 1885, foi pintor, fotógrafo, professor de artes e teórico da educação. Aos 10 anos de idade já se encontrava em Taubaté. Aos 20 era goleiro do Taubateense.
Não se sabe quando, mas o goal-keeper emigrou para São Carlos, onde passou quase toda a vida.
Naquela cidade tornou-se professor da Escola Normal, lecionando nas cadeiras de desenho e caligrafia.
Em 1951 pintou sua obra mais famosa. “Tiradentes Ante o Carrasco”, obra que foi transformada em estampa da cédula de 5000 cruzeiros.


Em entrevista realizada pela revista Manchete, Falco revelou que a proposta para a realização da obra foi feita por sua esposa, Benedita
[…] achava ela que o momento mais dramático de sua vida não havia ainda sido retratado convenientemente.
A proposta para imprimir a arte em dinheiro veio do Gustavo Barroso, diretor do Museu Histórico Nacional. Ela foi estampada no verso da nota de 5 mil cruzeiros em 1963.

“Não esperava ser contemplado com tão alta distinção” – Rafael Falco no jornal Tribuna da Imprensa, 24-25/9/1955
A obra tornou-se mais conhecida a partir das imagens produzidas no plenário do Conselho de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados, ambiente que atualmente protagoniza alguns dos maiores embates políticos das instituições federais. A obra ocupa o fundo da mesa diretora, mesma mesa onde muitos dos mais polêmicos e recentes depoimentos de autoridades políticas aconteceram.

Quando a obra foi produzida, o artista trabalhava como professor de língua francesa. Era, como dito na revista Manchete,
dedicado à pintura como “hobby” […] “pintor de horas vagas”, embora já tenha conquistado alguns prêmios em salões nacionais e paulistas de belas artes.”
O quadro foi adquirido e depois doado à Câmara dos Deputados pela Soberana Ordem dos Cavalheiros de São Paulo Apóstolo. Pouco antes da aquisição da obra, o artista se manifestou entusiasmado
Se isso se suceder, será um dos momentos mais felizes que experimentarei em minha vida” – Rafael Falco, Tribuna da Imprensa, 24-25/9-1955

O goleiro-pintor morreu em São Paulo, em 1967. É pouco conhecido nos circuitos artísticos, e muito menos como goleiro do primeiro time de futebol de Taubaté.
Referências
Revista Manchete, 17/9/1955
Tribuna da Imprensa, 24-25/9/1955
Taubaté e seus monumentos, de Oswaldo Barbosa Guisard
Acervos:
Área de Museus, Patrimônio e Arquivo Histórico de Taubaté (AMPAH): Hemeroteca Antonio Mello Junior e Museu da Imagem e do Som de Taubaté (MISTAU)
Fundação Biblioteca Nacional – Brasil. Hemeroteca Digital.

