Como surgiu a Semana Monteiro Lobato?

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Evento nasceu com o objetivo de resgatar a importância do escritor taubateano

Há 62 anos depois da sua 1ª versão, realizada em Taubaté entre 11 e 18 de abril de 1953, podemos concluir que o objetivo maior das primeiras edições da Semana Monteiro Lobato era o de resgatar a importância e a contribuição única do escritor para a formação de um pensamento genuinamente brasileiro. Para atingir esse objetivo, os organizadores procuraram evitar debates e estudos que abordassem um tema espinhoso: a conturbada relação de Monteiro Lobato com Taubaté, a sua terra natal. Um assunto muito polêmico na cidade, causador de prejuízos à memória do escritor. Durante anos eram “fabricados” dezenas de mitos injuriosos, quase todos girando em torno de um suposto desprezo de Lobato com a gente de Taubaté. Como resultado, até aquele momento todas as tentativas de envolver a cidade em homenagens ao já consagrado escritor, resultavam em retumbantes fracassos.

Detalhe de um artigo de Geraldo Marcondes Cabral publicado pelo jornal O Lábaro, nele o autor promete expor motivos que comprovam a “perniciosidade” da literatura de Lobato

Esse rancor doméstico teria se “oficializado” em 1922, logo depois do lançamento de “Cidades Mortas”. Este livro traça um perfil não muito simpático de um decadente Vale do Paraíba nos primeiros anos do século XX.

Em Taubaté a reação contra o livro de Lobato partiu de um vereador, Luis Câmara Leal, que em uma sessão da Câmara Municipal, subiu à tribuna como porta-voz de uma ressentida e indignada “elite” da cidade: “sonhando desmedidamente com recanto de consagração na Academia de Letras do Brasil, jovem, talentoso, mas soberbo, (…) aparece-nos um filho desta terra dizendo que “a nossa gente não vinga prosperar senão onde uma vitalidade prodigiosa poreja do húmus negro da terra virgem como o fumegar quente da rês carneada de fresco”. (…) nos faz crer um desterro de alma motivado pelos desregramentos de uma nobreza falida de que faz parte seu nome, o jovem escritor esvoaça, pretendendo se apossar da alma do leitor, numa concordância de pensar. (…) Os literatos ligeiros, de produção remuneradora, devem ser banidos do nosso meio, afastados de vez dos olhos dos jovens que procuram as delícias da novidade de um livro novo “.1

Essa “elite” se sentia traída pelo escritor. Acreditavam que, principalmente por ser o neto do outrora poderoso Visconde de Tremembé (falecido em 1911) e por viver até poucos anos sob a sua sombra, Lobato não poderia e não tinha o direito de expor com tanta crueza a realidade cinza que na época o Vale vivia.

 

A primeira semana

Durante anos e sem sucesso, os jacarés (Cesídio Ambrogi (1893-1974), Gentil de Camargo (1900-1983) e Urbano Pereira (1902-1968), três grandes amigos do escritor) tentaram mudar estes conceitos, sempre ressaltando que a importância do escritor era muito maior do que as picuinhas regionais. Não tiveram sucesso. A figura estereotipada de um desagregador ateu sempre se sobressaia.

Podemos notar que ao fazer o balanço das atividades da 1ª semana Monteiro Lobato (1953), Osvaldo Barbosa Guisard (1903-1982), um dos lobateanos mais fervorosos destacava o importante e objetivado resultado obtido pela “Semana”: “jamais a intelectualidade de qualquer terra em tão curto lapso de tempo teria estudado tão profundamente a vida e a obra de um pró-homem como ocorreu com Monteiro Lobato”.2

Ao concentrar em Taubaté personalidades da estatura de Caio Prado Jr., Aureliano Leite, Rubens do Amaral, Cid Costa Prado e ter recebido após 20 anos de ausência a consagrada pintora taubateana Georgina Albuquerque, os organizadores da “Semana Monteiro Lobato” começaram a apresentar a Taubaté um Lobato nacionalista, que havia sacrificado sua vida em nome do progresso brasileiro (o martírio é mais palatável para uma cidade fundamentalmente religiosa). Planejaram até a confecção de um selo em que Lobato era retratado tendo ao fundo a bandeira brasileira.

Capa do jornal A Tribuna publicada em 19 de abril de 1953, um domingo, após a primeira semana Monteiro Lobato

Apesar dos mimos, setores organizados da sociedade taubateana, abertamente contrários à obra e a “conduta” do escritor, promoveram um grande boicote ao evento. Segundo D. Lygia Fumagalli Ambrogi, que em uma das solenidades homenageou a viúva do escritor, Dona Purezinha Lobato com placa de ouro, lembra que poucos moradores da cidade prestigiaram a 1ª Semana:“Todos os dias o clero ia à rádio para criticar o Lobato. O povo ficou aterrorizado.Acho que só foram umas 20 pessoas”.

Reconhecendo fracasso parcial da primeira edição do evento, Osvaldo Barbosa Guisard declarou: “Estamos mais do que certos das falhas, dos enganos, das imperfeições da 1ª Semana Monteiro Lobato, mas cumpria que ela fosse realizada” 3. Como definiu o poeta Cesídio Ambrogi, Taubaté nutria “rancores telúricos” contra o criador do Sítio do Picapau Amarelo. Rancores que se intensificariam nas próximas edições do evento.

 

A semente

A ideia de realizar uma Semana Monteiro Lobato surgiu de Gentil de Camargo em 1952: “Fui convidado para fazer uma palestra sobre Euclides da Cunha, cuja semana estava sendo festejada em Taubaté. (…) E terminada a conferência no Rotary Club, então eu fiz essa pergunta: se uma cidade, que não é o berço natal de Euclides da Cunha, onde ele não redigiu” Os Sertões “, instituiu a semana de Euclides da Cunha, então por que Taubaté, berço natal de Monteiro Lobato, não realiza uma semana para homenageá-lo? Lanço essa idéia na terra fértil desse clube” 4.

A idéia foi imediatamente aceita, principalmente pelos professores do colégio estadual Monteiro Lobato. Eles iniciaram os primeiros movimentos para a realização do evento. Uma comissão foi organizada. Faziam parte, além dos os três “jacarés”, Osvaldo Barbosa Guisard, Antonio Mello, José Augusto Bartolo entre outros conterrâneos do escritor. Tomaram parte também o então prefeito de Taubaté Felix Guisard Filho e o deputado Jaurés Guisard.

A comissão pretendia promover um evento de caráter nacional. Pretendiam adquirir o Solar do Visconde (o atual Sítio do Picapau Amarelo), local de nascimento do escritor, promover concursos literários, emitir selos comemorativos e medalhas entre outras atividades.

Anunciaram também a possível presença de artistas taubateanos consagrados. Seriam convidados: Hebe e Fego Camargo, Mazzaropi, Alvarenga e Ranchinho, Alda Garrido, Chico Pelanca, Lia de Aguiar, Silvio Vieira e Monte Cezar.

Como consta no programa oficial da 1ª semana, o ponto alto do evento seria a presença do então governador do estado Lucas Nogueira Garcês e o seu secretário da educação, que sendo recebidos pelas principais autoridades da cidade assistiriam em um palanque armado no largo da catedral a um grade desfile. Rumariam em seguida ao local onde lançariam a pedra fundamental para a construção do edifício do Colégio Estadual Monteiro Lobato.

Porém, para o constrangimento dos organizadores, o governador não compareceu. Provabelmente acuados pela intensa campanha do clero local contra a realização do evento, esse fato acabou por esvaziar o resignado apoio dos figurões locais. E talvez aí resida um dos motivos que levaram os organizadores a se afastar da análise sobre a faceta taubateana do escritor e fixarem-se no nacionalista. Era um campo, por incrível que pareça, menos minado. 

Lobato, um taubateano

50 anos depois podemos verificar o incontestável papel da Semana Monteiro Lobato na preservação da memória do escritor. Atualmente, após uma série de ações (Projeto Memória 1998, remake do Sítio do Picapau Amarelo) vivemos momento oportuno para executar estudos mais aprofundados sobre outras facetas da história do escritor. Diante do distanciamento de ânimos e rancores se perderam no tempo, podemos agora mergulhar em novos campos de pesquisa, compreender um pouco mais da gênese do pensamento lobateano. Ao fazermos esta busca estaremos penetrando na própria historia do Vale do Paraíba.

Não devemos esquecer que a partir do livro Urupês, Lobato registrou com todas as tintas um Vale do Paraíba inédito na literatura e no jornalismo regional. De Areias a Buquira (Atual município de Monteiro Lobato), Lobato documentou com uma rara perspicácia, um cotidiano (intencionalmente?) ignorado pela maioria de seus conterrâneos e contemporâneos. Omitiu (ou deixou de registrar) apenas os pormenores da sua própria participação e principalmente o envolvimento da sua poderosa família nesta história.

É este o novo desafio para os pesquisadores e admiradores desta figura. Estudar as raízes genealógicas de Monteiro Lobato e conhecer o mais valeparaibano dos brasileiros.

Assista: Oswaldo Guisard e a Semana Monteiro Lobato

Referências:

1-    Atas do conselho da intendência municipal de Taubaté- 16/08/1922

2-    Jornal “A Tribuna”-19/04/1953

3-    Idem

4-    Jornal Valeparaibano-20/04/1980 

Veja também:

– Monteiro Lobato – a ação da Igreja Católica de Taubaté : a cidade, a escola e a imprensa como campos de tensão

Programação 63ª Semana Monteiro Lobato

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