A história de amor de Maria Justina e Amancio

Registrada em documentos do Arquivo Público de Taubaté

Por Fabiana Pazzine

Ao nos depararmos com um título que sugira a mistura de História com sentimentos, neste caso, o amor, pode até nos parecer estranho, já que sentimentos são elementos abstratos e difíceis de serem caracterizados. Diferentemente disso, a História, mesmo que possa ser percebida de diferentes ângulos, trata de fatos concretos protagonizados pelos homens em diferentes épocas.  Porém, não podemos deixar de pensar na seguinte questão: o que move os homens a tomarem determinadas ações e realizarem fatos históricos? Seria difícil uma resposta única e bem definida, mas, podemos supor que a ganância, o ódio, o desejo e mesmo o amor levaram e levam os homens a tomarem as mais diversas decisões.

Outra questão que pode nos parecer pertinente é a seguinte: de que vale saber a história de amores cotidianos de indivíduos comuns? Nesse contexto, alguns devem entender que somente algumas pessoas tiveram importância histórica, para ter seus atos guardados para a posteridade, se assim fosse, essas Histórias de gente comum não teriam relevância para se compreender o passado.

No passado, assim como no presente, são os sujeitos comuns que em conjunto formam a sociedade e a caracteriza, perpetuando ou não tradições e costumes, isto apesar de em todas as épocas alguns poucos nomes apenas estarem à frente de decisões políticas, econômicas e movimentos sociais variados.

Somos formados pela sociedade e ao mesmo tempo a transformamos. Mesmo que esta dinâmica possa parecer complicada, tudo isto ocorre diariamente, mesmo que não percebamos, pois, desde quando nascemos recebemos informações de como se comporta a sociedade e as interpretamos cada um a sua maneira.

As pessoas que consideramos importantes para se entender o passado, pertenceram à mesma sociedade de outras que consideramos comuns, portanto, para se entender melhor o que se passou devemos estudar além dos líderes, a sociedade. Em outras palavras: o conjunto de pessoas comuns.

Maria Justina Moreira era filha de Antonio Candido Moreira e morava na rua do Ithain (também chamada de Rua São Pedro), tinha dezesseis anos, trabalhava em uma casa de comissão de café no centro da cidade e em 12 de abril de 1916 fugiu de sua casa. O pai desesperado a procurou por toda a noite, mas só ficou sabendo no dia seguinte que ela estava na casa de sua amiga Veridiana, que morava na rua do Correa, mas esta prontamente negou a presença da filha em sua casa. No dia 13, o pai procurava o delegado ao saber que a filha havia sido deflorada por Amancio Lino de Moraes. Maria Justina morrendo de medo do pai havia fugido dizendo que ele a mataria.

Trecho da carta de Amancio Lino de Moraes para Maria Justina Moreira. Acervo DMPAH

Passando para a versão de Maria Justina, ela nos conta que havia conhecido Amancio há cerca de cinco anos e que este lhe prometia casamento. No dia 9 de abril do mesmo ano, Amancio havia entrado no quintal da casa de Maria Justina ultrapassando a cerca de arame que cercava o terreno e ali mesmo por volta das sete e meia da noite mantiveram relações sexuais. Maria Justina deixava claro: só tinha mantido relações sexuais com Amancio porque ele dizia ter a intenção de casar!

Carta de Amancio Lino de Moraes para Maria Justina Moreira. Acervo DMPAH

Amancio esperava Maria Justina todas as tardes após a hora do trabalho, na esquina da rua Bispo Rodovalho com a rua Doutor Souza Alves. Maria Justina dizia que recebia cartas de amor de Amancio e por não saber ler pedia às suas amigas que lessem as cartas. Amancio trabalhava no Hotel Lino que ficava na Praça da Catedral, fazendo esquina com a Rua Marquês do Herval. Em uma de suas cartas amorosas, ele se desculpava pela letra, pois estava escrevendo a carta escondido (com o papel timbrado do hotel) ou descondido como prefere falar Amancio. Outras características de nossos antepassados ainda podem ser observados no discurso de Amancio, como o modo de falar, pois ele pede descurpas a Maria Justina.

Ao se justificar, Amancio disse que namorava Maria escondido e que a tinha deflorado de propósito, pois queria se casar com ela, mas não tinha permissão do pai da moça. Em 13 de maio de 1916, o processo é encerrado com o casamento dos jovens.

Certidão de casamento de Amancio e Maria. Acervo DMPAH

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Fabiana Cabral Pazzine é professora de história. Pesquisadora de História Cultural e Social.

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