A lenda da Bica do Bugre

Texto de Renato Teixeira publicado na edição 715 do Jornal Contato

A aldeia Guaianá estava calma e segura guardada por Peri e seus homens preparados para fazer a segurança dos idosos e das crianças que ficaram na tribo, enquanto o resto do povo saiu em busca de alimentos,
com armas e jacás.
Foi quando veio a notícia que junto a uma elevação, próximo ao Rio Convento Velho, que nesses tempos nem nome tinha ainda, uma vertente se abriu jorrando água límpida e abundante.
Os Guaianás receberam a notícia como um presente dos deuses.Reunidos em torno  de uma bica improvisada que construíram, os índios realizaram uma cerimônia religiosa dirigida pelo Pajé da tribo que abençoou aquela água.

– Damos graças por esta água que corre sob nossos pés. Que ela seja sempre a fonte que saciará a nossa sede… a física e espiritual! Abrindo os braços generosamente para os céus,girou observando as serras, as árvores, os animais, seu povo feliz e vaticinou:

– Todo aquele que provar dessa água generosa, voltará um dia…Agora a vida está melhor pois água límpida é saúde para todos, é roça verdinha, é criação saudável e criança feliz.

Um dia, apareceu por lá um índio Tamoio sedento, vindo de Ubatuba, e se disse perdido dos seus companheiros, tendo vagado muitos dias pela mata Atlântica dormindo em árvores e comendo o que conseguia tirar
do mato. Peri, atencioso, recebeu o Tamoio com gentilezas dando a ele morada, alimento, curativos e água da bica generosa.

– Quem bebe dessa água, terá sempre que voltar.

– Não vejo razão para voltar, comentou o Tamoio; tenho minha casa, minha terra, meu povo… é por lá que prefiro ficar.

– Talvez não, respondeu Peri.

Acontece que existe algo de muito sério nessa profecia porque todos os que beberam, voltaram…

– Mesmo que não quisessem voltar?, quis saber o Tamoio.

– Até mesmo se não quisessem…

Viveu uns dias por ali apreciando a natureza e olhando sempre pra Mantiqueira… Passou um tempo e o Tamoio anunciou que voltaria pra sua terra.

– Passei dias felizes aqui, mas agora preciso partir… volto para meu povo, pra minha missão!

E partiu tomando o rumo da serra do Quebra Cangalha…

Depois, na taba, conversando com o chefe da tribo, Peri comentou o ocorrido. O velho índio indagou se Peri confiava nos propósitos do visitante.

– Quais propósitos? Ele apenas ficou por aqui uns dias, preparando a volta. Um bom sujeito…

– Talvez você tenha razão, Peri. Mas, repare bem no que lhe digo: tenho um mau pressentimento… acho que essa visita nos trará transtornos… não sei… meu coração está assustado…

Muito tempo passou e nunca mais se teve noticias do Tamoio.

A vida na taba continuava serena e segura, como sempre. Um dia, o grande chefe reuniu a tribo e avisou que fariam uma expedição de vulto lá pros lados do Embaú onde as roças estavam fartas e em ponto de
colheita. Porém, antes de partirem, chegou uma noticia trazida por um caçador que deixou todo mundo preocupado. Havia sinais de que estranhos andavam por perto. Mato pisado e cinzas de fogueira eram sinais de que pessoas passaram nas cercanias.

Mas o assunto não andou e finalmente todos saíram para a colheita. Ficaram na taba, Maíra, uma líder tribal generosa e ativa, uma espécie de rainha querida por todos, as crianças
e os impossibilitados.

Quando voltaram da colheita farta, encontraram a aldeia destruída, sem sinais de sobreviventes.

Imediatamente, Peri lembrou do Tamoio e dos sinais que antecederam a partida da colheita. Lembrou também das dúvidas do chefe. Dois velhos sobreviventes do massacre contaram que os invasores levaram
Maíra e as crianças.

Então, Peri lembrou do índio Tamoio: foi ele que veio espionar a situação para poder atacar. A intuição do velho chefe estava certa. Mas o Tamoio havia bebido da água da bica, lembrou-se.

Portanto voltaria, um dia. Então era só esperar. Anos se passaram, e Peri esperava enquanto seus cabelos iam ficando brancos e seu corpo cansado.

Até que um dia, ei-lo: o Tamoio já velho e alquebrado volta á Bica para beber água. E encontra o Bugre. Confessa que sua estadia na aldeia foi para espionar e que Maíra estava morta. E que nunca deixou de amar Peri.

Uma fúria louca tomou conta do coração do Bugre que, numa luta que demorou tempo indeterminado, massacrou aquele que havia lhe trazido tanta infelicidade.

A lenda da Bica do Bugre, tem muito do taubateanismo histórico, pois, saber esperar e confiar nas premonições sempre foram características do nosso povo. Agora, pacientemente, estamos na espera que em breve a bica seja devolvida à cidade vertendo água pura, reverenciando nossa história que começa ali.

Por enquanto, Peri está encarcerado, esperando o dia da liberdade. Uma cidade como Taubaté não pode condenar seu herói principal, à insignificância do abandono.

 

(Adaptado do texto de Emílio Amadei Beringhs.)

 

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Comments

1 Comentário

  1. Eliana Andrade

    29/06/2017 at 7:05 am

    Triste porém bonita

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