Taubaté e a Revolução de 1932

Em 9 de julho de 1932 teve início a Revolução Constitucionalista, uma revolta do Estado de São Paulo contra o governo de Getúlio Vargas. A exigência dos paulistas era que Vargas criasse uma nova Constituição (novo conjunto de leis para o país). Veja como a cidade de Taubaté foi afetada com essa revolta:

 

Cenário de Guerra

Taubaté parecia uma cidade sitiada. Soldados ocupavam as ruas e havia toque de recolher. O prefeito controlava preços e estoques públicos e particulares de alimentos. Quase todos os prédios públicos estavam cedidos ao Comando de Guerra.

“Sem salvo-conduto, ninguém entrava ou saía de Taubaté.”

Salvo Conduto para entrada e saída de Taubaté

Salvo Conduto para entrada e saída de Taubaté (Acervo Lygia Fumagalli Ambrogi)

Período de combates

Entre 9 de julho e 4 de outubro.

 

Saldo de mortos

Oficialmente: 934

Não oficiais: 2200

 

Taubaté formou 5 batalhões voluntários

Batalhão Jacques Felix; Batalhão dos Caçadores; Batalhão Arquidiocesano; Batalhão Mantiqueira e Batalhão Auxiliar da Força Pública do Estado.

Batalhão Jacques Felix diante da Igreja de Santa Teresinha. (Acervo Maria Morgado de Abreu)

Batalhão Jacques Felix diante da Igreja de Santa Teresinha. (Acervo Maria Morgado de Abreu)

Prefeito Armamentista

O então prefeito de Taubaté, o major Paranhos de Bello, além de controlar a cidade, comandava também um batalhão de soldados, o Batalhão Auxiliar da Força Pública do Estado, popularmente conhecido como “Batalhão Major Paranhos”.

 

Honraria seletiva

Taubaté teve pelo menos 6 voluntários mortos em combate. Só dois deles – Voluntário Benedito Sergio Pinto e Voluntário Penna Ramos – foram homenageados com seus nomes em ruas da cidade.

 

Alcaguetagem oficializada

A população foi intimada a vigiar vizinhos e vizinhanças a procura de “traidores ou espiões”. Quem não segurasse a língua poderia ir para a cadeia. Em Taubaté, ao menos duas pessoas foram presas por “derrotismo”.

Anúncio oficial incentiva a delação de infiltrados durante a revolução

Anúncio oficial incentiva a delação de infiltrados durante a revolução

 

Estado de Guerra

O uso de alguns prédios de Taubaté

Câmara Municipal (hoje Banco do Brasil, Rua Visconde do Rio Branco) – abrigou a Delegacia Técnica do MMDC;

Estação Ferroviária – A cantina do Soldado de 32, organizada por senhoras da sociedade local, funcionava 24 horas;

Colégio Lopes Chaves – Era onde se alistavam os voluntários do Batalhão de Caçadores;

Fábrica de Seda Felenas (depois Embaré, hoje um condomínio de luxo) – ali foi instalado um posto de vigia com duas metralhadoras.

Batalhão Auxiliar da Força Pública do Estado (Acervo Paulo Camilher Florençano)

Batalhão Auxiliar da Força Pública do Estado (Acervo Paulo Camilher Florençano)

A Guerra e os homens – Personalidades alteradas pelo cheiro da pólvora

Repórter de Guerra

Silvio Guisão foi um jornalista combativo e militar reformado. Quando a guerra eclodiu, largou o emprego para ser o primeiro de Taubaté a seguir para as linhas de frente. Anos antes havia lutado nas revoluções de 1924 e 1930. Em 1897, foi promovido a Cabo por heroísmo na Guerra de Canudos.

 

Não deu a outra face

A Revolução afastou do púlpito o Arcebispo de São Paulo D. Duarte Leopoldo e Silva. Era pelo rádio que o sacerdote taubateano preparava o espírito do paulista para derramar sangue em combate.

 

Prato frio

O Coletor Federal em Taubaté, Ranieri Mazzili, também foi a guerra contra Getúlio Vargas que, em última análise, era seu patrão. Fracassou e perdeu o emprego. Deu o troco no Golpe de 1964, quando puxou a cadeira de Jango, um reconhecido discípulo de Vargas. Mazzilli inaugurou a galeria de presidentes do Regime Civil-Militar.

 

Lobato separatista

Monteiro Lobato, que no início do conflito pareceu alheio aos fatos da guerra, apoiou o gesto do filho Edgar quando se alistou. Ele teria feito o mesmo.

“(…) São Paulo, depois da vitória, deverá expressar-se nesta fórmula: hegemonia ou separação”. Monteiro Lobato

 

Guerra no sertão:  Memórias de uma taubateana

A população do Vale do Paraíba foi a que mais sofreu durante os combates. Aqui estavam concentradas a maior parte das tropas, tanto do governo federal, quanto do exército constitucionalista.

Dulce, Dirce e Maria Thereza Marcondes no bairro São João do Macuco, zona rural de Taubaté e um dos postos de combate durante a Revolução Constitucionalista. (Reprodução do livro Tempo e Memória)

Dulce, Dirce e Maria Thereza Marcondes no bairro São João do Macuco, zona rural de Taubaté e um dos postos de combate durante a Revolução Constitucionalista. (Reprodução do livro Tempo e Memória)

Certo dia, espalharam que o inimigo invadiria a área rural de Taubaté. A população entrou em pânico.

“O povo todo do bairro batia em retirada. Só se via gente com cestas, balaios e trouxas na cabeça, todos apavorados!” Memória de Maria Thereza Marcondes.

Na volta para casa, capacetes de aço, perneiras, blusões, pentes de balas abandonados pelos soldados em fuga eram encontrados na beira das estradas. Muitas famílias perderam parentes, bens, animais e criação.

“Ninguém nos explicou coisa alguma que pudesse amenizar um pouco nossa revolta e nós crescemos detestando a ditadura, Getúlio Vargas, os cariocas, Herculano de Carvalho etc…” Memória de Maria Thereza Marcondes.

 

Conteúdo publicado originalmente na Revista Almanaque Taubaté #2

 

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Comments

1 Comentário

  1. ANTÓNIO CARLOS RODRIGUES

    09/07/2017 at 11:36 am

    09JULHO32: UMA REVOLUÇÃO PARA ATENDER INTERESSES POLÍTICOS E ECONÔMICOS DE CAPITALISTAS LEITEIROS E CAFEICULTORES E SEPARATISTAS DE SÃO PAULO. AO POVO, A LUTA FRATICIDA E A MORTE.

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